Roberta coutinho | amy

SANG

Ato I– Morta enquanto viva

Levantava e não escovava os dentes. De sua janela, via todos os dias a paisagem de concreto, cor de nada. Saia na rua de pijama listrado. Um dia acordou cansada da vida e raspou a cabeça.

Olhava para o céu escuro e abria a boca. Mas os grãos que caiam, todos secos e ásperos demais, não tinham cheiro, não tinham gosto. Implorava por um pouco de ar, mas respirava apenas poeira de cimento.

Ato II- Fecundação 

Dissolveu todo o amor que guardava bem escondido em substância química forte, que quase a deixava sem ar, para ver se assim extraía do pincel alguma tinta. E pintou nos muros daquela cidade perdida o quanto queria se apaixonar todos os dias.

Mas pintou tanto, que as imagens ficaram todas iguais. Banalizou as cores mais fortes que poderia encontrar e as misturou em meio a paisagem homogênea. E seus traços perderam o tom. Já não havia mais diferença entre uma parede e outra. Continuava tudo escuro ou lavado demais.

Se não podia dar cor às construções, tatuou o corpo inteiro na esperança do verde, do amarelo, do azul. Só para ver se poderia existir algum tom em seu mundo diferente do cinza. E se pintava toda, mas não existia cor. Ela se riscava, mas nada aparecia. Dela, brotavam apenas as lágrimas transparentes.

E foi riscando a pele, até rasgar a carne.

Foi quando nasceu.

Ato III- Nascimento 

De seu corpo, brotou o vermelho naquele mundo. E a natureza se irradiou tanto com rubro, que quis extrair dela todo aquele tom. Espremeu sua alma, até o sangue brotar entre suas pernas. Até que de seu ventre escorreu o líquido. De seu útero, nasceu a vida. Com pernas abertas ela deu a luz.

Ato IV- solidão 

Mas do que adiantaria tanta cor no mundo, se seus olhos insistiam em enxergar sozinhos? O sangue nunca pintaria sua alma sem cor. Talvez ela não devesse tentar dissolver em uma química tão pesada o amor.

MODELO

Roberta Coutinho

FOTOGRAFIA E TEXTO

Ato I– Morta enquanto viva

Levantava e não escovava os dentes. De sua janela, via todos os dias a paisagem de concreto, cor de nada. Saia na rua de pijama listrado. Um dia acordou cansada da vida e raspou a cabeça.

Olhava para o céu escuro e abria a boca. Mas os grãos que caiam, todos secos e ásperos demais, não tinham cheiro, não tinham gosto. Implorava por um pouco de ar, mas respirava apenas poeira de cimento.

Ato II- Fecundação 

Dissolveu todo o amor que guardava bem escondido em substância química forte, que quase a deixava sem ar, para ver se assim extraía do pincel alguma tinta. E pintou nos muros daquela cidade perdida o quanto queria se apaixonar todos os dias.

Mas pintou tanto, que as imagens ficaram todas iguais. Banalizou as cores mais fortes que poderia encontrar e as misturou em meio a paisagem homogênea. E seus traços perderam o tom. Já não havia mais diferença entre uma parede e outra. Continuava tudo escuro ou lavado demais.

Se não podia dar cor às construções, tatuou o corpo inteiro na esperança do verde, do amarelo, do azul. Só para ver se poderia existir algum tom em seu mundo diferente do cinza. E se pintava toda, mas não existia cor. Ela se riscava, mas nada aparecia. Dela, brotavam apenas as lágrimas transparentes.

E foi riscando a pele, até rasgar a carne.

Foi quando nasceu.

Ato III- Nascimento 

De seu corpo, brotou o vermelho naquele mundo. E a natureza se irradiou tanto com rubro, que quis extrair dela todo aquele tom. Espremeu sua alma, até o sangue brotar entre suas pernas. Até que de seu ventre escorreu o líquido. De seu útero, nasceu a vida. Com pernas abertas ela deu a luz.

Ato IV- solidão 

Mas do que adiantaria tanta cor no mundo, se seus olhos insistiam em enxergar sozinhos? O sangue nunca pintaria sua alma sem cor. Talvez ela não devesse tentar dissolver em uma química tão pesada o amor.

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