vejo Apolo e Dioniso se divertirem com suas presas
indefesas. enquanto elas fogem
na vã esperança de preservarem
a vida. e os gatos só pensam em brincar.
observo e nada faço. apenas compreendo essência
felina. questionando quando algo voa, rasteja, corre
e os dois se demoram
no sensual movimentar.
sinto certo prazer no observar
despretensiosa caça. o desempenho em matar
lentamente
inseto desavisado. na diversão entre ora fingir abandono
permitindo improvável fuga [enchendo de esperança
quase moribundo atocaiado]; ora maltratá-lo na recaptura
após rendição à ilusão da morte não ser
eminente.
olho. e nada faço. até me divirto. me pergunto se por isso
sou omissa. ou uma mulher má. se eu não deveria repreender
meus gatos. já tão privados de sua natureza, por não correrem livres
além dos jardins contornados
da casa onde habito. eu deveria salvar
os que julgo indefesos? ou apenas acolher
minha natureza? de quem, por muitas vezes
simplesmente não se importa.
mas se esforça
num sentir descabido. na esperança de caber
em mundo inventado. não somente por mim. mas pelos muitos
e muitas advindos
antes de mim. histórias cravadas em minhas células
as quais aprendi a reviver
sem perceber
não serem minhas.
máximas integradas, misturadas, criadas na urgência
[ou fantasia] de ser necessário desmembrar-se em personagens
muito distantes de própria verdade
para pertencer e sobreviver
à vida. talvez eu realmente não me importe
da forma como imaginava.
talvez os deuses e deusas simplesmente
não se importem. nem interfiram diante emocionadas
súplicas. apenas honram e reconhecem a ordem natural
da existência. a necessidade da compensação [e não de
punição] divina. e precisamos aprender a aceitar:
se a morte é inevitável; tão certa quanto o nascer do sol
a cada dia; que entre o hiato da inicial dor nos pulmões
e sua total falência
possamos nos permitir viver
a própria humanidade. mesmo diante inevitável
selvageria.
compactuada nos registros destas linhas a revelarem
o até então oculto em minha alma: matei mais um cacto
afogado. arranquei cada um de seus encharcados pedaços
do vaso. criei pequenas feridas nas mãos. enquanto Apolo e Dioniso
repousam tranquilos
em diferentes cantos da sala.
um de meus dedos ainda sangra
enquanto rascunho estas palavras.
* Texto escrito pela terapeuta e artista plástica Cláudia de Sousa Fonseca
* Performance artística realizada por Cláudia de Sousa Fonseca registrada pelo fotógrafo @j.r.f.r.a.n.c.o para o projeto @body.projection
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